Leitores sempre divergem na opinião sobre adaptações cinematográficas de livros clássicos. Eu acho tal desacordo saudável além de óbvio já que a maior (e melhor) característica da leitura é a liberdade dada à imaginação de cada leitor, que se apoia em suas próprias experiências para construir um mundo a partir do texto de outra pessoa.
Dessa forma, não chega a espantar as opiniões opostas sobre o filme Ensaio sobre a cegueira – dirigido por Fernando Meirelles com roteiro de Don McKellar. Diante dos prós e contras, fico do lado dos que gostaram do filme.
Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, narra a proliferação de uma cegueira branca que instaura caos em uma civilização, reduzindo seus habitantes à essência humana. Entre a população condenada à treva branca da misteriosa doença, apenas uma pessoa não perde a visão – a mulher do médico -, condenada pela “responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”.
Saramago conduz o texto com maestria, prendendo a atenção do leitor numa narrativa que não poupa descrições detalhadas até mesmo dos cenários mais imundos ou de situações grosseiras e cruéis. A riqueza do texto é tamanha que a ausência de nomes nos personagens pode passar despercebida.
Impossível também não comentar o perfeccionismo no uso do discurso indireto livre pelo autor. Enquanto tal recurso é utilizado por alguns autores de forma mais exibicionista – podendo até comprometer a compreensão do texto -, em Ensaio sobre a cegueira o estilo torna a leitura saborosa e inteligível.
Para a adaptação cinematográfica, o roteiro apoiou-se na riqueza de detalhes do texto original com algumas pequenas alterações e outras supressões que não comprometeram a lógica da narrativa. O corte mais significativo do roteiro foi na fase pós-quarentena quando o grupo dos cegos e a mulher do médico vão até a casa da rapariga de óculos escuros. Outra pequena mudança está na procedência da tesoura: enquanto no filme a tesoura pertencia à rapariga de óculos escuros, no livro o objeto foi levado para a quarentena pela mulher do médico para aparar a barba do marido, mas acabou preferindo pendurar a mesma num ponto alto da parede por ser algo perigoso no meio de tantos cegos.
Os excelentes recursos visuais do filme ficam com a tarefa de provocar uma “cegueira” no público: excessos de luz, enquadramentos sufocantemente próximos e desfocados, imagens opacas ou sobrepostas em reflexos compõem o cenário confuso, habitado pela excelente interpretação de Julianne Moore e elenco multinacional.
Assistir ao Ensaio sobre a cegueira vale a pena tanto pela produção do filme, atuações exemplares e técnicas de filmagens quanto pela história que percorre a angústia e a insensibilidade de um mundo que não encherga o próximo. O filme também é um ótimo atalho para um público maior aventurar-se nos livros de Saramago.







4 Comentários
13 Outubro, 2008 às 12:08 am
ainda estou atordoado pelo filme, umas das melhores experiencias que eu vivi num cinema… ainda não li o livro, mas coincidiu de ver o filme enquanto estou lendo ‘o ano de 1993′, tb do Saramago, e que lembra muito a condição de caos do Blindness…
13 Outubro, 2008 às 10:31 am
Realmente a produção foi fantástica.
Com os excessos de luz, tive a sensação de ter sido infectado pela “cegueira branca”.
E quanto à atuação de Julianne Moore, na sua “responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam” – como você citou -, foi maravilhoso ver que ainda existem humanos com compaixão ao próximo. Mesmo sendo traída, não desistiu de ajudar o seu cônjuge infiel.
13 Outubro, 2008 às 5:54 pm
Assisti ao filme sem ler o livro. Mas, tem umas cenas que fica meio na cara que o Meirelles deu uma amenizada. Mas, ao mesmo tempo trouxe uma Julianne Moore que tem todas as atenções para si, num papel bastante digno.
14 Outubro, 2008 às 11:27 am
Jeff: o livro é altamente recomendável. Meirelles foi muito fiel à narrativa.
Rafael: A Julianne é formidável. O próprio diretor confessou que na edição quando alguma cena não ficava boa era só substituir com um enquadramento na atriz e tudo ficava perfeito!
Teco: O próprio Meirelles disse no blog que se mantivesse o alto teor imundo e grosseiro do livro, muita gente abandonaria o filme por asco hehe