Baudolino, o mentiroso

Baudolino - Umberto Eco. Editora Best Seller

Editora Best Seller

2008 tinha apenas começado há poucos dias e lá estava eu num ônibus, prestes a encarar 16 intermináveis horas de viagem a fim de cruzar três estados dentro daquele elefante amarelo que já tinha rodado 500km só naquele dia e teria outros 800km após de mais 800km do meu trajeto. Pensando assim até que minha viagem seria curta, comparando com outros passageiros.

Mas nem com auto-piedade (ou otimismo forçado) era impossível não entrar na onda de desânimo e cansaço que dominava o ônibus. Como já sabia o que vinha pela frente – afinal, o trajeto agora era a ‘volta’ – antes da viagem tentei me prevenir com algumas compras em livrarias e bancas de revistas, mas acabei me contentando com duas revistas semanais ‘cortesia’, também conhecido como ‘exemplar encalhado de três anos atrás’.

Eis que começa o trajeto e em menos de uma hora as revistas já estavam tão sem assuntos quanto eu. Meu companheiro de viagem, sonolento. Uma vovó, em frente, narrava sua farsa de ter tomado um porre na Oktoberfest. Coloco fones de ouvido e ouço Get me away from here, I’m dying, do Belle and Sebastian.

Na primeira parada, minha salvação: no restaurante do posto de combustível encontro um daqueles displays giratórios de livros e, perdido entre auto-ajudas e afins, escolhi Baudolino, do escritor italiano Umberto Eco.

Minha experiência com Eco limitava-se às teorias acadêmicas como Apocalípticos e Integrados (praticamente um livro de cabeceira ao longo do curso de Jornalismo) e Como se faz uma tese (apesar de ter ignorado trechos sobre toda aquela estrutura academicista da Itália). Houve também uma tentativa frustrada em ler O nome da rosa, mas digamos que este não é um livro muito indicado para um adolescente de 14 anos.

Agora meu martírio estava suavizado com a leitura.

Capa da edição americana

Capa da edição americana

A história passa no século 12, na Itália medieval, e é narrada por Baudolino, um formidável mentiroso – daqueles que quase acreditam na própria mentira – que é adotado (“me comprou de meu pai”, como diz Baudolino) pelo Imperador Romano Frederico I, após uma mentira ter massageado o ego do Imperador. A narração é feita para o novo amigo, o grego Nicetas, que se dispõe a passar para o papel as memórias do herói falastrão.

A maior parte da narrativa concentra-se na procura do fantástico reinado do Prestes João, assim como a confecção de uma relíquia para presentear o soberano e a produção de um Santo Graal. Personagens históricos cruzam com situações cômicas, muitas vezes provocadas com a interferência mentirosa de Baudolino, desencadeando em passagens epopéicas e surgimento de personagens fantásticos e lendários, tudo descrito com o detalhismo obsessivo de Eco.

Umberto Eco aproveita para botar em xeque algumas lendas cristãs como a dos Reis Magos, questionando sobre a real quantidade dos Reis Magos – eram só três ou esse é um número simbólico? – e indagando sobre a real origens desses Reis. Também é notável a miscelânea cultural entre os companheiros de Baudolino: alemão, judeu, armênio, francês, bizantinos e muitos italianos, contrastando ideais e comportamentos desses povos.

As 600 páginas de Baudolino podem intimidar a princípio, mas o carísma do herói mentiroso e sua saga cheia de altos e baixo encantam e divertem. Confesso que foi uma boa opção para a viagem.

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3 Respostas

  1. Procura o “Apocalípticos e Integrados” dele. Uma discussão MUITO interessante sobre a indústria cultural. Bom MESMO. Como só o Eco consegue ser.

  2. Plínio Lúcio Lima Diniz | Responder

    Baudolino pra mim foi um livro que mostrou a liberdade que um escritor tem de contar sua estória sem medo de estar agradando ou desagradando, e uma descrição da Idade Média sob um ponto de vista totalmente novo pra mim. Gostei muito!
    Parabéns pelo blog.

  3. Olá, Plínio!

    Quando o assunto é criatividade, Eco é um gênio! Baudolino também me encantou pelas descrições e história cativante, indispensável para segurar o leitor durante 600 páginas!
    Obrigado pela visita!

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