Garoto Estúpido

“Do que se trata tudo isso?

O dicionário não consegue definir tudo. Eu devia entender.

Você não está mais aqui, Marie, para explicar globalização, Estados livres, G8, Taxa Tobin, países subdesenvolvidos, escravidão… mas vou aprender.

Não sei o que serei mas sei o que não serei. Não serei anti-globalização, nem vou marchar com as massas, nem gritar “Kill Them”, nem ser um tira, nem vender, nem ser um hooligan, nem neutro, nem razoável, nem um militante, nem um colaborador.

Não vou foder todo mundo, nem fundar uma família, vender o rabo, comprar rabo, ter filhos, temer o escuro, amar o escuro, ser um cristão, um judeu, um budista, não acreditar nas pessoas, ser como todo mundo, transparente, faltoso, não olhar as mulheres diretamente nos olhos, foder homens ao invés de falar com eles, foder todo mundo para evitar amar sozinho.

Quero contar histórias, Marie, minhas própria histórias. E ninguém saberá se elas são verdade ou fantasia.

Não quero ser um garoto estúpido. Não sou um garoto estúpido.”

O filme suiço Garçon Stupide, de Lionel Baier, conta a história de Loïc, um jovem que durante o dia trabalha na linha de produção duma fábrica de chocolates e à noite mantém encontros ocasionais com homens que conhece em salas de bate-papo. Entre a rotina de trabalho e o sexo anônimo quase compulsivo, Loïc conta com a companhia da amiga Marie, para quem confidencia suas aventuras.

Mesclando linguagens de narração e documentário, Baier comanda um pequeno elenco cujo única atriz profissional é Natacha Koutchoumov, no papel de Marie. O amigo misterioso para quem Loïc (Pierre Chatagny) relata sua vida é o próprio Lionel Baier, assim como o jogador de futebol Rui Pedro Alves, recebe o mesmo nome de seu ator.

Curiosidades à parte, Garçon Stupide apresenta um garoto ingênuo, perdido no mundo adulto, que entrega-se a relações descartáveis para não enfrentar a realidade. As cenas de sexo fogem completamente do pudico e romanceado estilo Hollywoodiano onde lençóis e ângulos diversos poupam atores de maiores exibicionismos , sendo que nem mesmo o nu frontal masculino é descartado. No entanto, talvez para chocar menos, em algumas seqüências mais “picantes” a tela é divida em dois quadros, reduzindo o impacto de um ou outro close-up peniano.

Entre uma conversa com Marie e aventuras com desconhecidos, Loïc recorre a uma enciclopédia ilustrada para descobrir quem foi Hitler ou saber o que é Impressionismo. Antes na alienação, Loïc começa a questionar o rumo de sua vida após discutir com Marie e torna-se obcecado pelo jogador de futebol Rui ao mesmo tempo que se afasta de Lionel. Assim o filme caminha numa aparente seqüência de situações sem sentido, seguido do suicídio de Marie e do encontro de Loïc com Rui.

Por fim, uma frustrada tentativa de suicídio traz Loïc de volta para o convívio não muito afetuoso com seus pais e ao mesmo tempo abre os seus olhos para o mundo, encarando a realidade que o cerca. O trecho transcrito acima é a última fala de Loïc; um excelente e breve monólogo sobre seu amadurecimento.

Garçon Stupide foi lançado em 2004 e rendeu uma nomeação de melhor atriz coadjuvante a Natacha Koutchoumov no Swiss Film Prize.

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