O Horror Segundo S.H.

Não sou muito assíduo a limpezas, faxinas e afins. Estou mais apto a terceirizar tais serviços ao invés de cansar-me e desafiar a preguiça tão costumeira e já bem-vinda.

Porém, numa situação rara, resolvi passar um breve momento de um sábado lavando dois pares de tênis. Já que decidi por tal afazer, o mesmo deveria ser da forma mais tradicional: na beira do tanque, com o método esfrega-enxuga-esfrega-enxuga-torce-seca.

Tudo ia muito bem nos preparativos para tal tarefa: Ok Computer, do Radiohead, tocando ao fundo; avental para não molhar nada além dos tênis; retirar cadarços e palmilhas. Porém, o tanque, abarrotado de baldes, trapos e outras porcarias, tinha que ser esvaziado para que meu divertimento fosse completo.

Ao retirar o último objeto do tanque, ela apareceu: branca, pálida e nojenta, exibindo suas pequeninas patinhas e o longo rabo com riscas cinzas. Sem maiores preocupações de que estava incomodando continuou exibindo-se pelo tanque, achando-se a dona do território, alimentando todo o desprazer deste que escreve.

Nojo e repulsa são poucos para classificar meu estado emocional naquele instante ao deparar-me com a lagartixa. Não poderia permitir que aquela asquerosa intrusa interrompe-se um raro momento com os meus queridos tênis. Um de nós teria que abandonar o território, e eu continuaria lá!

A guerra estava então declarada: abaixo do tanque onde o maldito bicho passeava encontrava-se diversos produtos de limpeza. Não pensei mais do que uma vez: nada melhor do que um banho de desinfetante no monstrinho. Peguei um desses ‘pinho-alguma-coisa’ e virei o líquido sobre a bichinha que escorregou até o ralo do tanque. Mas a maldita, apesar de filhotinha, era maior do que os vãos do ralo e continuou a rir do meu pavor.

Pensei: “Já que é assim, veremos se você prefere um pouquinho de água sanitária!”. Ameaça feita, ameaça cumprida! “Vamos ver agora, queridinha…” eu sorria maldosamente, orgulhoso de minhas idéias. No entanto a desgraçada continuou firme, segurando-se nos vãos do ralo e gargalhando da minha cara.

“Ahhh… é forte? Então tome um pouquinho de amoníaco!”, ataquei já sacando o pote e despejando o pó sobre a criatura. Novamente não surgiu muito efeito. Mesmo assim não desisti: deixei a torneira do tanque aberta, jorrando água para impedir que aquilo subisse e tentasse alguma loucura para vingar-se.

Cercada de água corrente, a geconídea ficou no fundo do tanque, levando tombos pela teimosia ao tentar atravessar a água, que a jogava novamente para o ralo de vãos pequenos. Finalmente, com um forte jato de água, a criatura foi arremessada de uma vez só ao ralo, arrastada para o esgoto onde deveria ter sempre estado.

Vitoriosamente aliviado, voltei aos meus afazeres, feliz por não ter desenvolvido crises existenciais que me levassem a degustar aquilo que tanto me assombrava.

Fitter, happier, more productive,
comfortable,
not drinking too much,
regular exercise at the gym
(3 days a week),
getting on better with your associate employee contemporaries
at ease,
eating well
(no more microwave dinners and saturated fats),
a patient better driver,
a safer car
(baby smiling in back seat),
sleeping well
(no bad dreams),
no paranoia,careful to all animals.

***

O texto acima foi originalmente publicado em 25/05/2006 no meu antigo blog Ai que Preguiça!, atualmente em coma induzido.

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