O que não mata, vira poesia

Classificado genericamente como um movimento – ou vocalização – involuntário, rápido e não ritmado, distribuído em intervalos de tempo variados sem uma seqüência padronizada, normalmente fruto do estresse ou anormalidades neurológicas, o tique nervoso surge como resposta a emoções incômodas.
Longe de parecerem com grunhidos, bocejos, coceiras, espasmos e piscadelas descontroladas, as faixas do álbum les tics são excelentes válvulas de escape do bicho homem fragmentado, desorientado e assustado.
Cria de dois integrantes da banda Gianoukas Papoulas, Olavo Rocha e Umberto Serpieri, o projeto Lestics lançou les tics em setembro de 2007 como um complemento do álbum 9 sonhos, do começo do mesmo ano, porém com suas particularidades independentes. lestics02 Do espírito roqueiro que passeia com o folk e com o country, esbarrando às vezes em algumas ‘popices’ sedutoras, les tics propõe uma breve peregrinação, em nove faixas, por sentimentos conhecidos com uma releitura até mesmo irônica.
Na primeira faixa, Tipo, acompanhando a batida folk, a letra capricha no sarcasmo ao apresentar um cara esquisitão que apesar de todos os traumas da infância, “até que ele é um tipo bem normal”. Do folk inicial, na faixa seguinte, Gênio, o country-rock fica mais consistente a partir da batida no violão que vai dando lugar a uma guitarra arranhada, ambos guiados no ritmo pela pandeirola, tendo um acabamento ácido com os versos “você tem a alma atormentada de um gênio, pena que te falte uma pitada de talento”.
Em Inevitável a dolorosa busca por rimas e aspirações artísticas é novamente apontada num country-rock alegre que intensifica o teor tragicômico da busca pelo refrão “que vem como um orgasmo, como um desgosto, como um castigo implacável”.
Recheado de ótimas rimas, les tics proporciona um exercício de ironias como em “A última palavra é sua, fique com ela pra você” nos primeiros versos de Última Palavra, faixa que nos faz imaginar um Pato Fu experimentando a folk music. Coisa boa!
Como nem só de ironias vivem os roqueiros, na sutil balada Náusea descobrimos que por trás de tantos tiques há um coração partido que percebe que “o delírio me inspira as palavras mais certas”, concluindo que “o que não me mata, eu transformo em poesia”.
lestics01
Outras duas baladas do disco evidenciam um excelente potencial radiofônico dos Lestics. Em Luz do Outono o vocal de Olavo Rocha desfila uma belíssima declaração de amor eterno, acompanhada pelo tradicional trio bateria, guitarra e baixo. Já em Metamorfose a balada retoma um pouco a ironia para uma declaração às avessas a uma amada de comportamento um tanto mutável. Por fim, les tics vai chegando ao final com a delicada faixa Caos (“não é possível que você não acorde com o barulho infernal de cada estrela que explode”), para em seguida encerrar na divertida e breve Ego.
Sem dúvidas, les tics é daqueles álbuns que deixa qualquer um cantarolando o resto do dia apesar de não ter melodias grudentas. Por ser aquele tipo de música que pegamos um certo carinho – que beira o ciúme -, nem vou contar que a banda disponibiliza o download do disco em seu site. Não conto mesmo.
Site oficial: www.lestics.com.br
(Texto originalmente publicado no Poppycorn em 27 de janeiro de 2008.)
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Uma resposta

  1. […] o onírico 9 sonhos e do conflito emocional de les tics, Hoje é um retrato das diferentes reações provocadas pelo passado: ora trazendo saudades, ora […]

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