O sofrimento e a arte

Em Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, a sociedade futurística é formada por humanos fabricados e condicionados, possibilitando a existência de uma população saudável e obediente, além da diferenciação de classes conforme características físicas e intelectuais.

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Diante de uma população fabricada, as relações familiares eram tidas como algo primitivo e vulgar, assim como a vida coletiva era valorizada e necessária para o bem estar da sociedade. Para tanto, o passado foi reescrito conforme a necessidade de manter o suposto bem estar e o que divergia do pensamento imposto fora destruído e proibido. Dessa forma, a Arte foi substituída pelo entretenimento sensorial criado por Engenheiros de Emoções.

Um dos líderes do governo em questão, o Administrador Mudial Mustafá Mond explica para Helmholtz e John porque Shakespeare não é bem vindo na sociedade:

Porque o nosso mundo não é o mesmo que o de Othello. Não se podem fazer calhambeques sem aço e não se podem fazer tragédias sem instabilidade social. O mundo é estável, agora. As pessoas são felizes, conseguem o que querem e nunca querem aquilo que não podem obter. Sentem-se bem, estão em segurança, nunca estão doentes, não receiam a morte, vivem numa serena ignorância da paixão e da velhice, não são sobrecarregadas com pais e mães, não têm mulheres, nem filhos, nem amantes, pelos quais poderiam sofrer emoções violentas, estão de tal modo condicionadas que, praticamente, não podem deixar de se portar como devem.

(…) esse é o preço que temos de pagar pela estabilidade. É preciso escolher entre a felicidade e o que outrora se chamava a grande arte. Nós sacrificamos a grande arte. Temos em seu lugar os filmes perceptíveis e os órgãos de perfumes.

Gostei muito desse trecho por expor a idéia da necessidade da instabilidade social para existir a Arte, assim como enobrece o ideal do artista-sofredor.

Claro que a instabilidade social é um terreno fértil para obras artísticas surgirem e proporem discussões relevantes, mas nem só de tristeza vive a arte. Já para combater o ideal do artista-sofredor, muito difundido principalmente na poesia, recorro às palavras do diretor de cinema David Lynch, retiradas do livro Em Águas Profundas:

O artista precisa entender o conflito e o estresse. Essas coisas lhe instigam idéias. Mas garanto que estresse demais imobiliza à criatividade. Podemos entender o conflito, sem necessariamente viver dentro dele.

(…)

É senso comun: quanto mais o artista sofre, menos criativo ele fica. O mais provável é que trabalhe de má vontade e que dificilmente faça algo de interessante.

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2 Respostas

  1. Dizer que a instabilidade eé um eixo pra justificar os prazeres e diversidades do mundo é desculpa pra manter intacto um ciclo que se corroído, abaixaria muitas cortinas, e há muitos escondidos por aí. Não precisamos de misérias para sermos humildes, nem criar uma sociedade cheia de fotografias do que é ruim pra buscar o bom ”onde há muros, há oque esconder”; se a vida fosse puramente desmedida, com a necessidade de acordo com a vivência e não com o consumo certamente não precisaríamos de discurso, mas as palavras da vida bem saberiam dizer.

    Gostei de sua pauta.

    Prazer,!

    🙂

    1. Olá, Cláudia!

      Obrigado pela sua visita e opinião! É bom encontrar visões que saiam da rotina massificada.

      Abraços!

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