A arma sonora

No livro Cantiga de Ninar, de Chuck Palahniuk, o jornalista Carl Streator, durante pesquisas sobre a Síndrome de Morte Súbita Infantil, descobre uma cantiga africana que se falada – ou mesmo pensada – em direção a alguém, mata a pessoa no mesmo instante. Pouco antes do verso fatal – ou cantiga de poda – transformar o jornalista num assassino compulsivo, Streator imagina como seria se o barulhento mundo de hoje começasse a aterrorizar-se com qualquer tipo de som:

O trovão abafado do diálogo atravessa as paredes, seguido por uma gargalhada em coro. Depois, mais trovões. a maior parte das trilhas sonoras de risadas na televisão foi gravada no começo da década de 1950. Hoje em dia, a maioria das pessoas que nós ouvimos rindo já estão mortas. (…)

Sob o assoalho, alguém está exclamando as palavras da letra de uma canção. Essas pessoas que precisam de suas tevês, vitrolas ou rádios tocando o tempo todo, essas pessoas que têm tanto medo do silêncio, são minhas vizinhas.

São barulhonômanos. Silenciófobos. (…)

Nós aumentamos o volume da nossa música para abafar o barulho. Os outros aumentam o volume da sua música para abafar a nossa. Nós aumentamos a nossa mais uma vez. (…)

Não se trata de qualidade. Trata-se de volume. (…)

Esses barulhômanos. Esses calmófobos.

Lá vem a batida, a batida e a batida de um tambor atravessando o teto. Pelas paredes, dá pra ouvir o riso e o aplauso de gente morta.

(…) Não é que você queira que todo mundo morra, mas seria agradável soltar o feitiço de poda no mundo. (…) Depois que as pessoas declarassem ilegal qualquer som forte, qualquer som que pudesse abrigar um feitiço, qualquer música ou barulho que pudesse ocultar um poema mortífero, depois disso o mundo ficaria silencioso. Perigoso e assustador, mas silencioso.

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