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John Waters – Parte 6

Cry-Baby (1990)

Com Johnny Depp no papel principal, elenco cada vez mais famoso e excelentes músicas, Cry-Baby foi o único musical de John Waters e provavelmente uma das poucas megaproduções do cineasta.

Wade Walker (Depp), também conhecido por Cry-Baby pela habilidade de chorar apenas uma lágrima, faz parte dos Drapes, os garotos rebeldes e desajustados de uma escola de Baltimore nos anos 50, rivalizados pelos certinhos e endinheirados Squares.

A rivalidade entre Drapes e Squares acentua com o namoro de Cry-Baby e Allison Vernon-Williams (Amy Locane), uma típica square que está “cansada de ser boazinha”.

No elenco, além dos já tradicionais Dreamlanders, Ricki Lake volta após o sucesso de Hairspray na companhia do cantor Iggy Pop e da controversa Traci Lords, que ganhou fama após revelar ter realizado centenas de filmes pornográficos antes de completar 18 anos, tornando todo o material ilegal.

Para não desagradar totalmente o estúdio investidor, que exigiu um filme de classificação 14 anos, John Waters pegou leve nos temas polêmicos, mas sem desapontar os fãs com as suas inversões de valores e sátiras subversivas.

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2 x 7 filmes em 2010

Recuperando a idéia de listas Tirando o Atraso chegou a hora de enumerar alguns filmes aos quais assisti em 2010 (lançamentos ou não), compondo duas listas: uma com sete filmes imperdíveis e outra lista com filmes que não deveriam ter saído do projeto.

TOP 7:

  • Toy Story 3 (2010, Dir.: Lee Unkrich): Exagero dizer que um dos melhores filmes do ano é uma animação? Não. Toy Story 3 é divertido e comovente na medida certa, recomendado para todas as idades.
  • É Proibido Fumar (2009, Dir.: Anna Muylaert): Mistura perfeita de drama, romance e suspense num roteiro caprichado de Anna Muylaert e interpretações brilhantes de Glória Pires e Paulo Miklos.
  • 500 Dias Com Ela ((500) Days of Summer, 2009, Dir.: Marc Webb): Sobre pé-na-bunda e como superá-lo. Aberto para a discussão: Summer foi cruel ou Tom não percebeu os sinais desde o começo?
  • A Origem (Inception, 2010, Dir.: Christopher Nolan): Ficção científica rocambolesca com roteiro tão bom que não deixa ninguém perdido na história. Ponto para o encontro de Joseph Gordon-Levitt e Leonardo DiCaprio que também estão em 2 outros filmes desta lista.
  • Ilha do Medo (Shutter Island, 2010, Dir.: Martin Scorcese): Suspense impecável, com fotografia belíssima e uma reviravolta no final.
  • Anticristo (Antichrist, 2009, Dir.: Lars von Trier): Riqueza de simbologia com pitadas de sadismo para narrar a tentativa de um casal em superar a morte do filho.
  • Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro (2010, Dir.: José Padilha): Uma sequência que conseguiu ser melhor do que o filme original. Filme brasileiro de ação de alta qualidade.

FLOP 7:

  • Do Começo ao Fim (2009, Dir.: Aluisio Abranches): Difícil saber o que é pior nessa tentativa de filme temático LGBT: o roteiro sem nexo? Atuações patéticas? Direção precária? Nonsense gratuito? O que Júlia Lemmertz faz perdida nesse fiasco?
  • Se Nada Mais Der Certo (2008, Dir.: José Eduardo Belmonte): Poderia ser melhor sem a narração inaudível e sofrível de Cauã Reymond e a tentativa de abraçar muitos temas ao mesmo tempo.
  • Atividade Paranormal 2 (Paranormal Activity 2, 2010, Dir.: Tod Williams): o primeiro já era ruim.
  • Carrie, A Estranha (Carrie, 2002, Dir.: David Carson): Filme feito para tv que assusta pela péssima qualidade.
  • Comer, Rezar, Amar (Eat Pray Love, 2010, Dir.: Ryan Murpy): Julia Roberts e Javier Bardem não foram suficientes para tornar a adaptação do livro famoso em um filme interessante.
  • Nosso Lar (2010, Dir.: Wagner de Assis): Muito dinheiro gasto em “efeitos especiais” e nenhum investido em bom gosto na direção de arte.
  • Nine (2009, Dir.: Rob Marshall): Se a melhor parte do filme é a participação de Fergie, como levar o resto a sério?

John Waters – Parte 5

Hairspray – E Éramos Todos Jovens (Hairspray, 1988)

No começo da década de 60 a grande sensação da tv em Baltimore era o programa Corny Collins Dance Show. Fazer parte dos participantes/dançarinos era o sonho dos adolescentes, principalmente de Tracy Turnblad (Ricki Lake), a gordinha de cabelo armado à base de muito hairspray. Após ganhar um concurso de dança, Tracy é selecionada para integrar ao Corny Collins a princípio contra a vontade de sua mãe Edna (Divine, em seu último papel), até enchergar as possibilidades financeiras no sucesso da filha.

O sucesso de Tracy incomoda a mimada Amber von Tussle (Colleen Fitzpatrick), que com a ajuda dos pais Velma (Debbie Harry) e Franklin (Sonny Bono) procuram sabotar a gordinha preferida pelo público. Ao mesmo tempo, algo mais importante preocupa Tracy e seus amigos: segregação racial, participando de protestos a favor da integração em programas de tv.

Apesar de ter ganhado uma adaptação em musical da Broadway em 2002 e um filme musical em 2007, Hairspray não é um musical. O filme dançante de John Waters tem uma produção mais requintada, fugindo da estética trash de seus primeiros filmes. Entre os Dreamlanders originais, participam do filme Mary Vivian Pearce e Mink Stole, além de Divine, que faleceu antes do lançamento do filme.

Poderia ser pior

Reclamar sobre os títulos de alguns filmes quando lançados no Brasil é algo que faço com bastante frequência e também não é por menos. Uma das atrocidades mais recente feita em título de filme foi com a comédia How To Lose Friends and Alienate People, que faz uma óbvia paródia ao livro de auto-ajuda Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas veio pro Brasil com o inacreditável título Um Louco Apaixonado. Mas os critérios utilizados para nomear umfilme no Brasil são um tanto nebulosos. Normalmente esse tipo de trabalho fica a cargo do departamento de marketing da distribuidora do filme que normalmente recebe apenas uma breve sinopse e algumas fotos sobre o filme a ser lançado.

Mas ao invés de listar os péssimos títulos de filmes no Brasil, prefiro mostrar que poderia ser pior. Há casos que mostram o quanto os departamentos de marketing de distribuidoras de filmes em Portugal são muito mais criativas.

Pra terminar, um caso inverso: o filme brasileiro Macunaíma nos EUA virou Jungle Freaks.

John Waters – Parte 4

Polyester (1981)

Francine Fishpaw (Divine) é uma dona de casa dedicada, casada com um proprietário de cinema pornô e mãe de uma ninfomaníaca e de um violento podólatra viciado em desinfetantes, que vê sua vida desmoronar com os protestos de defensores de filmes de classificação livre, a gravidez da filha e os ataques do filho como maníaco pisador de pés. Roubando a cena, surge a amiga confidente e ex faxineira Cuddles Kovinsky (Edith Massey com sua inconfundível atuação adoravelmente mecânica) – que ficou rica após receber herança de antigos clientes – para ajudar Francine a descobrir a traição do marido com a secretária.

Desiludida, Francine passa a beber compulsivamente e tenta suicídio enquanto o filho é preso e a filha é enviada para uma instituição religiosa administrada por freiras cruéis. Após uma sequência de desastres na vida da família, os problemas vão sendo aparentemente resolvidos, assim como Francine arruma um novo namorado, que na verdade é comparsa e amante de sua mãe para roubar o dinheiro recebido no divórcio.

Uma das atrações de Polyester quando foi lançado em 1981 é o cartão Odorama – que também acompanha a edição importada do DVD – que a partir de indicações numéricas na tela permite que o espectador sinta o cheiro característico da cena ao raspar o número correspondente no cartão, recurso bastante útil já que a protagonista está sempre intrigada ou incomodada com determinados vestígios olfativos.

Sexta long-metragem da carreira de diretor de John Waters, Polyester indica um início de suavização dos temas polêmicos e nonsense em seus filmes, assim como uma produção mais sofisticada, fugindo um pouco da caráter trash marcante dos primeiros filmes. O filme também rendeu trechos de diálogos usados na fantástica música Frontier Psychiatrist, do grupo eletrônico The Avalanches.

Ghost World

Após a formatura do colegial, duas adolescentes procuram o rumo para a vida adulta, planejando arranjar empregos e morar juntas, mas nem tudo parece tão fácil como imaginado. Uma sinopse como essa pode sugerir equivocadamente que Ghost World nada mais é do que um filme adolescente sem muitos atrativos.

Adaptação do quadrinho homônimo que foi publicado em oito edições da revista Eightball de Daniel Clowes, Ghost World retrata uma adolescência que foge dos clichês com a dupla Enid (Thora Birch) e Rebecca (Scarlett Johansson) que para contrabalançar a personalidade socialmente desajustada encaram a vida de forma extremamente irônica e sarcástica.

A maior qualidade do filme é não se prender a um gênero específico; boa parte da história desenvolve-se com um requintado humor de alta acidez, até atingir conflitos dolorosos que, ao invés de drama óbvio, desemboca num final sutilmente poético.

Além da dupla Enid/Rebecca, quem rouba a cena é o esquisitão Seymour (Steve Buscemi) que torna-se amigo de Enid sem saber que a mesma o tinha passado um trote respondendo um anúncio de jornal e a professora de artes Roberta (Illeana Douglas) e seu vídeo apresentação que me faz lembrar muitos pseudo artistas.

Impossível também não ficar encantado com a trilha sonora que reúne blues, jazz e musicais Bollywoodianos, com faixas de Skip James e Lionel Belasco. As faixas podem ser ouvidas nesta lista de reprodução.

Ghost World foi lançado em 2001, mas não teve grandes repercussões, só chegando aos cinemas brasileiros em festivais. Ao invés das video-locadoras, no Brasil o filme entrou na grade de programação do canal Telecine com o nome de Mundo Cão para só depois de alguns anos ser lançado em DVD (e em alguns casos vendido com uma revista qualquer), com o risível subtítulo “Aprendendo a Viver”.

John Waters – Parte 3

Problemas Femininos (Female Trouble, 1974)

A trajetória caótica de Dawn Davenport (interpretada por Divine, claro) é o centro da história de Problemas Femininos, de John Waters, começando pela fuga da jovem revoltada por não ter ganhado sapatos de salto alto (um cha-cha heals, como são chamados os sapatos de stripers) de presente de Natal. Na fuga, Dawn ganha carona de Earl Peterson (também interpretado por Divine!) que resolve aproveitar da garota no meio do caminho, mas acaba tendo a carteira roubada. Grávida e solta no mundo, para sobreviver Dawn vira uma garota de carreira(s): garçonete, stripper, prostituta e assaltante. Com uma mãe nem um pouco exemplar, a garota Taffy (Mink Stole) torna-se uma criatura irritante e revoltada que brinca de acidente de carro e nunca foi à escola para não perder tempo com “presidentes, guerras, números ou ciência”.

Dawn casa-se com o cabeleireiro Gator (Michael Potter) para infelicidade da tia Ida (Edith Massey) – uma sexagenária gorda que só usa roupas de couro justas e decotadas – que preferia que o sobrinho fosse gay, pois “o mundo heterossexual é uma vida doente e tediosa”. Mesmo com o fim do casamento, Dawn é convidada para ser modelo em um ensaio fotográfico cheio de crimes pelo casal Dasher (David Lochary e Mary Vivian Pearce), levando a insana protagonista às últimas consequências até o seu apogeu: a cadeira elétrica.

Desperate Living (1977)

Peggy Gravel (Mink Stole) é uma histérica e paranóica dona de casa que acabou de voltar do sanatório e ataca o marido ao imaginar que o mesmo tentava matá-la. Ao gritar por socorro, é acudida pela empregada obesa Grizelda (Jean Hill) que acidentalmente mata o patrão sufocado ao sentar no mesmo. Para evitar a prisão, Peggy e Grizelda fogem para Mortville, uma espécie de vilarejo para criminosos e marginalizados, dominado pela Rainha Carlota (Edith Massey).

Grizelda e Peggy alugam um quarto na pensão de uma ex-lutadora lésbica e sua namorada assassina, desencadeando inúmeras situações bizarras. Desperate Living, além de não contar com a presença de Divine, é o filme mais lésbico da carreira do diretor.

Crash

Crash

A premiação do Oscar no ano de 2006 surtiu muita polêmica com o resultado para Melhor Filme, concedendo a estatueta para o filme de Paul Haggis Crash – No Limite. Ao mesmo tempo que muita gente vibrou com a premiação, tantos outros contestaram ora por considerarem o filme exageradamente preconceituoso, ora pela consequente não-premiação dos concorrentes: O Segredo de Brokeback Mountain, Capote, Boa Noite e Boa Sorte e Munique.

Já que o tema principal de Crash é o preconceito, faço uma confissão: por muito tempo recusei-me a assistir a esse filme por um único motivo: Brendan Fraser.

Após alguns anos de preparação, além da expectativa de ver Jennifer Esposito (a Andrea de Samantha Who?) num papel dramático, fiquei aliviado com as curtas aparições do péssimo Fraser, graças à grande quantidade de personagens com suas histórias entrelaçadas.

Num balanço geral, Crash é um filme excelente, mas fico do lado daqueles que acreditam que O Segredo de Brokeback Mountain ou Capote mereciam muito mais o prêmio.

John Waters – Parte 2

PinkFlamingos

Pink Flamingos (1972)

Reverenciado como o melhor pior filme do mundo, Pink Flamingos sem dúvidas bate recordes em situações, cenas e contextos subversivos, polêmicos e escatólogicos. O exercício de mau gosto, disfarçado em uma comédia escrachada, traz Divine novamente no centro da história: a foragida Divine – a pessoa mais perversa ainda viva – usa o codinome Babs Johnson e tem como esconderijo um trailer rosa (com estátuas de flamingos decorando a entrada) em um terreno baldio, habitado também pela amiga voyeur Cotton, o filho maníaco Crackers e a mãe de baixa idade mental  Edie.

Como uma boa criminosa, Babs orgulha-se pela péssima fama conquistada a custo de muito esforço: assassinatos e roubos. No entanto, o invejoso casal Marble planeja tomar o título de pessoa mais perversa viva de Babs e para isso contam com uma estratégia única: sequestrar mulheres e engravidá-las para depois vender os bebês para casais de lésbicas e, com o dinheiro arrecadado, financiar o tráfico de heroína em escolas infantis, além de manter lojas de pornografia.

edieLogo no início a bizarrice começa com a mãe de Babs – a obesa e retardada Edie – que vive em um chiqueirinho comendo e implorando por ovos o dia todo. A guerra entre Divine e os Marbles é declarada após estes enviarem um singelo presente de aniversário a Babs: uma bela e colorida caixinha com bosta. A batalha segue com uma operação profonação da casa dos Marbles: Divine/Babs e seu filho Crackers lambem todos móveis e objetos da casa e acabam tomando outras medidas mais drásticas.

Filmagens toscas, às vezes mal enquadrada e/ou desfocada, além das atuações muitas vezes exageradas são só detalhes na sequência de cenas memoráveis (ou seriam traumatizantes?) que vão desde uma cena de sexo envolvendo galinhas vivas sendo esmagadas, a uma dublagem de música feita por, digamos, outra parte do corpo além da boca, além da inacreditável cena que encerra o filme, com Divine provando que sua perversidade não tem limites.

Pink Flamingos é aquele tipo de filme que pode assustar os mais desavisados, mas nem por isso deve ser desmerecido pelo excesso de conteúdo inapropriado. Toda a tosquice e subversão proposta rendem uma história engraçada, cheia de nonsense e frases de efeito extremamente eficientes. É puro cinema trash para assistir sem pudores.

Dorian Gray

Já faz um bom tempo que falei aqui sobre mais uma adaptação do maravilhoso livro O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, para o cinema.

Finalmente, o filme dirigido por Oliver Parker estreará no Reino Unido no dia 9 de setembro e já tem um aperitivo circulando pela web:

Parece que dessa vez acertaram a mão.

Via Celso Dossi.