Arquivos de Tag: Chuck Palahniuk

A arma sonora

No livro Cantiga de Ninar, de Chuck Palahniuk, o jornalista Carl Streator, durante pesquisas sobre a Síndrome de Morte Súbita Infantil, descobre uma cantiga africana que se falada – ou mesmo pensada – em direção a alguém, mata a pessoa no mesmo instante. Pouco antes do verso fatal – ou cantiga de poda – transformar o jornalista num assassino compulsivo, Streator imagina como seria se o barulhento mundo de hoje começasse a aterrorizar-se com qualquer tipo de som:

O trovão abafado do diálogo atravessa as paredes, seguido por uma gargalhada em coro. Depois, mais trovões. a maior parte das trilhas sonoras de risadas na televisão foi gravada no começo da década de 1950. Hoje em dia, a maioria das pessoas que nós ouvimos rindo já estão mortas. (…)

Sob o assoalho, alguém está exclamando as palavras da letra de uma canção. Essas pessoas que precisam de suas tevês, vitrolas ou rádios tocando o tempo todo, essas pessoas que têm tanto medo do silêncio, são minhas vizinhas.

São barulhonômanos. Silenciófobos. (…)

Nós aumentamos o volume da nossa música para abafar o barulho. Os outros aumentam o volume da sua música para abafar a nossa. Nós aumentamos a nossa mais uma vez. (…)

Não se trata de qualidade. Trata-se de volume. (…)

Esses barulhômanos. Esses calmófobos.

Lá vem a batida, a batida e a batida de um tambor atravessando o teto. Pelas paredes, dá pra ouvir o riso e o aplauso de gente morta.

(…) Não é que você queira que todo mundo morra, mas seria agradável soltar o feitiço de poda no mundo. (…) Depois que as pessoas declarassem ilegal qualquer som forte, qualquer som que pudesse abrigar um feitiço, qualquer música ou barulho que pudesse ocultar um poema mortífero, depois disso o mundo ficaria silencioso. Perigoso e assustador, mas silencioso.

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Tirando o Atraso 2008 – Livros

livrosEu sei. Uma lista de 2008 publicada em março de 2009 é o cúmulo do atraso, mas como procrastinação é meu forte, vai assim mesmo para não ficar só na promessa.

Como já disse antes a lista não é de novidades – uma espécie de “melhores de 2008” – e sim uma reunião daquilo que preencheu muito bem minhas horas vagas.

Antes da lista, mais uma consideração: ao contrário da lista de séries, não haverá ranking entre os livros abaixo, sendo os mesmos organizados por ordem de sobrenome do autor.

Meu top 10 de livros lidos em 2008:

Sobre Ética e Imprensa – Eugênio Bucci

Ao fim da leitura de Sobre a Ética e Imprensa fiquei com a triste sensação de que a grande imprensa brasileira o considera uma espécie de Manual de anti-jornalismo, em virtude do comportamento contrário aos ensinamentos de Bucci ser tão frequente nas redações. Recomendado para quem ainda acredita ser possível fazer a diferença.

A Sangue Frio – Truman Capote

Destaque no surgimento do jornalismo literário, A Sangue Frio narra o assalto frustrado que resulta no assassinato da família Clutter até a condenação e execução dos assassinos. Fruto de 6 anos de pesquisas e entrevistas feitas por Capote, o livro é uma obra-prima rica em detalhes e capaz de prender a atenção do leitor até a última página.

Casa Grande & Senzala – Gilberto Freire

Estudo minucioso sobre as raízes da sociedade brasileira, influencias culturais e ambientais, assim como as contribuições de cada etnia presente no passado brasileiro. Publicado em 1933, Casa Grande & Senzala provocou reações diversas ao mostrar a miscigenação como uma riqueza da nação.

Comunicação em Prosa Moderna – Othon M. Garcia

Não perca tempo com “manuais de redação” dos jornais X ou Y que só servem para homogeneizar textos e estabelecer regras empresariais. Othon M. Garcia mostra o caminho para escrever bem sem a desnecessária pasteurização institucional que tantos manuais oferecem.

1984 – George Orwell

Eu já tinha lido 1984 em plena adolescência e o maravilhamento foi imediato. 9 anos depois, resolvi reler o clássico de Orwell – mas dessa vez em inglês – e é incrível como o mesmo texto proporciona novas experiências após um longo intervalo. A sociedade totalitária imaginada por Orwell, com suas terminologias e hipocrisias explicam muito a nossa sociedade. Dizer de onde surgiu o termo Big Brother é o de menos.

Clube da Luta – Chuck Palahniuk

Sempre nutri uma certa obsessão pelo filme Clube da Luta, mas o livro, esgotado no Brasil, tornou-se algo impossível de encontrar. Mas sempre tem pessoas incríveis e especiais dispostas a garimpar editoras e distribuidoras até encontrar aquele presente perfeito. E foi assim que ganhei o livro de Palahniuk. A maluquice subversiva de Tyler Durden e a devoção quase homoerótica do narrador são brilhantes.

Vidas Secas – Graciliano Ramos

Confesso: em tempos de prova de literatura no Ensino Médio, li o resumo ao invés do livro. Para corrigir os erros do passado, aventurei-me pelo regionalismo de Graciliano Ramos e apaixonei-me pelo que encontrei. A família animalizada que tenta sobreviver à seca e a cachorra Baleia que sonha com preás compõem um retrato sensível do sertão.

What Língua is Esta? – Sérgio Rodrigues

Neste livro, Sérgio Rodrigues do blog Toda Prosa reuniu textos publicados originalmente em jornais e sites abordando neologismos, estrangeirismos, lulismos e outras variações linguísticas presentes no dia-a-dia brasileiro.

Alucinações Musicais – Oliver Sacks

O neurologista Oliver Sacks é famoso por contar casos inusitados de pacientes, tendo algumas de suas histórias adaptadas para o cinema, como Tempo de Despertar e À Primeira Vista. Em Alucinações Musicais, Sacks reúne situações relacionadas à música, ora como terapêutica, ora prejudicial nos mais variados pacientes.

Ensaio Sobre a Cegueira – José Saramago

Apesar do filme homônimo ser bastante fiel à história de Saramago, sempre recomendo a leitura do livro pelo prazer de acompanhar o desenrolar da história dos cegos e a mulher do médico com a riqueza de detalhes sórdidos e escatológicos ao qual o mundo dos cegos foi transformado.

Ficaram de fora, mas nem tanto: A Revolução dos Bichos (George Orwell), São Bernardo (Graciliano Ramos) e No Sufoco (Chuck Palahniuk) foram ótimas leituras, mas para manter a lista com um livro de cada autor, ficaram à parte.

Distopia e subversão

Admirável mundo novo é uma distopia escrita por Aldous Huxley em 1932 em que as pessoas, num futuro hipotético, são “fabricadas” e condicionadas pela hipnopedia para aceitarem obedientemente as regras estabelecidas num mundo onde relações familiares, cultura e religião são alguns dos tabus sociais.

No 3º capítulo do livro, numa narrativa que intercala quatro cenas diferentes entre um parágrafo e outro, vamos conhecendo melhor o mundo imaginado por Huxley onde os anos são contados a partir da criação do Ford T e a expressão religiosa Nosso Senhor deu lugar a Nosso Ford. Ao longo da palestra do Administrador Mundial Mustapha Mond sobre como o mundo era horrível cheio de mães, pais, livros, museus e que “A história é uma ilusão”, recebemos pequenas doses da hipnopedia:

“Os fatos velhos são detestáveis. Nós rejeitamos sempre os fatos velhos. Mais vale destruir que conservar, mais vale destruir que conservar. Quanto mais se remenda, pior se fica. Quanto mais se remenda, pior se fica. Como gosto de ter fatos novos. Como gosto de ter fatos novos. Como gosto de andar de avião, como gosto de andar de avião.”

Da distopia de Huxley para a subversão de Chuck Palahniuk, em No Sufoco:

“O irreal é mais poderoso do que o real.

Porque nada é tão perfeito quanto você você pode imaginá-lo.

Porque é só idéias intangíveis, conceitos, crenças, fantasias que duram. Pedra desintegra. Madeira apodrece. Pessoas… bem, elas morrem.

Mas coisas tão frágeis como um pensamento, um sonho, uma lenda, continuam.”

Escritores de épocas distintas – Huxley marcado pelo fascismo italiano ao qual conviveu na décade de 20; Palahniuk na esquizofrenia do século 21 – com aflições tão semelhantes.

Ida Mancini, a terrorista social

No livro No Sufoco de Chuck Palahniuk – também conhecido como o autor de Clube da Luta – conhecemos ao longo da história o passado de Ida Mancini, a mãe idosa e insana do protagonista Victor Mancini, um viciado em sexo que trabalha como ator num museu temático e nas horas vagas simula engasgar-se em restaurantes caros.

O passado de Ida é repleto de estadias na cadeia e sabotagens de deixar Tyler Durden do Clube da Luta orgulhoso. Uma ‘terrorista anti-social’ é a melhor definição da personalidade de Ida, conforme seu filho. As idéias anárquicas da personagem é resumido no trecho abaixo, em tradução livre a partir da edição original.

“As pessoas trabalham por tantos anos para fazer o mundo um lugar seguro e organizado. Ninguém percebeu o tanto que isso vai ficar chato. O mundo todo com demarcação de propriedade e limite de velocidade e zoneamento e tarifado e regulamentado, com todo mundo analisado e registrado e endereçado e gravado. Ninguém deixou muito espaço para a aventura, talvez exceto a que você pode comprar. Em uma montanha russa. Em um cinema. Mesmo assim, sempre seria uma excitação artificial. Você sabe que os dinossauros não comerão as crianças. As exibições-testes foram contra qualquer possibilidade de um grande desastre artificial. E porque não há possibilidade de desastre real, risco real, perdemos a oportunidade da salvação real. Entusiasmo real. Excitação real. Alegria. Descoberta. Invenção.

As leis que nos mantém salvos, nos condenam ao tédio.

Sem acesso ao verdadeiro caos, nunca teremos a verdadeira paz.

Ao menos que tudo possa piorar, não ficará melhor.”

No Sufoco (ou Choke, no original) foi adaptado para o cinema e deve ser lançado por volta de Outubro nos EUA. Anjelica Houston, a inesquecível Morticia Addams, interpreta a adorável e alucinada Ida Mancini e Sam Rockwell dá vida a seu filho Victor. A maluquice toda é dirigida por Clark Gregg (pela primeira vez na direção), o marido de Christine na série The New Adventures of Old Christine.