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Dia do Remorso

“Deus criou o mundo em seis dias, descansou no domingo e na segunda se arrependeu. Desde então, a segunda-feira ficou consagrada como dia internacional do remorso”

OrgiasLuís Fernando Veríssimo

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A arma sonora

No livro Cantiga de Ninar, de Chuck Palahniuk, o jornalista Carl Streator, durante pesquisas sobre a Síndrome de Morte Súbita Infantil, descobre uma cantiga africana que se falada – ou mesmo pensada – em direção a alguém, mata a pessoa no mesmo instante. Pouco antes do verso fatal – ou cantiga de poda – transformar o jornalista num assassino compulsivo, Streator imagina como seria se o barulhento mundo de hoje começasse a aterrorizar-se com qualquer tipo de som:

O trovão abafado do diálogo atravessa as paredes, seguido por uma gargalhada em coro. Depois, mais trovões. a maior parte das trilhas sonoras de risadas na televisão foi gravada no começo da década de 1950. Hoje em dia, a maioria das pessoas que nós ouvimos rindo já estão mortas. (…)

Sob o assoalho, alguém está exclamando as palavras da letra de uma canção. Essas pessoas que precisam de suas tevês, vitrolas ou rádios tocando o tempo todo, essas pessoas que têm tanto medo do silêncio, são minhas vizinhas.

São barulhonômanos. Silenciófobos. (…)

Nós aumentamos o volume da nossa música para abafar o barulho. Os outros aumentam o volume da sua música para abafar a nossa. Nós aumentamos a nossa mais uma vez. (…)

Não se trata de qualidade. Trata-se de volume. (…)

Esses barulhômanos. Esses calmófobos.

Lá vem a batida, a batida e a batida de um tambor atravessando o teto. Pelas paredes, dá pra ouvir o riso e o aplauso de gente morta.

(…) Não é que você queira que todo mundo morra, mas seria agradável soltar o feitiço de poda no mundo. (…) Depois que as pessoas declarassem ilegal qualquer som forte, qualquer som que pudesse abrigar um feitiço, qualquer música ou barulho que pudesse ocultar um poema mortífero, depois disso o mundo ficaria silencioso. Perigoso e assustador, mas silencioso.

O instinto assassino por G.H.

Numa passagem de A Paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector (obviamente um dos meus livros preferidos), G.H. discorre, tomada pelo pânico, sobre o inesperado desejo de matar. O texto de Clarice faz um retrato sublime de como a ira nos cega repentinamente:

O medo grande me aprofundava toda. Voltada para dentro de mim, como um cego ausculta a própria atenção, pela primeira vez eu me sentia toda incumbida por um instinto. E estremeci de extremo gozo como se enfim eu estivesse atentando à grandeza de um instinto que era ruim, total e infinitamente doce – como se enfim eu experimentasse, e em mim mesma, uma grandeza maior do que eu. Eu me embriagava pela primeira vez de um ódio tão límpido como de uma fonte, eu me embriagava com o desejo, justificado ou não, de matar.

Logo adiante, G.H. não resiste e comete o crime que, fora do contexto, pode soar cômico, mas somente uma escrita tão envolvente é capaz de tornar qualquer absurdo em um relato coerente:

Sem nenhum pudor, comovida com minha entrega ao que é o mal, sem nenhum pudor, comovida, grata, pela primeira vez eu estava sendo a desconhecida que eu era – só que desconhecer-me não me impediria mais, a verdade já me ultrapassara: levantei a mão como para um juramento, e num só golpe fechei a porta sobre o corpo meio emergido da barata.

O Código de Ética Decorativo

Uma instituição – seja pública ou privada – ao buscar orientar ações e explicitar a própria postura diante da sociedade serve-se de um código de ética como instrumento para a exposição de princípios a serem cumpridos.

São vários os códigos de ética profissionais, empresariais e governamentais; temos, por exemplo, Código de Ética Odontológica, Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, Código de Ética do Grupo Pão de Açúcar, Código de Ética dos Servidores da Anatel, entre outros.

Enquanto alguns códigos de ética só interessam aos envolvidos, outros merecem maior destaque e este caso deve ser aplicado ao Código de Ética da Radiodifusão Brasileira, de 1993, firmado entre os empresários da Radiodifusão Brasileira e Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão).deadtv

O texto que inicia com o pacto entre os empresários de radiodifusão dispostos a “transmitir apenas o entretenimento sadio e as informações corretas espelhando os valores espirituais artísticos que contribuem para a formação da vida e do caráter do povo brasileiro” é uma coletânea de dissimulações e idéias retrógradas. Destaco alguns trechos curiosos:

(…)

CAPITULO II

Da Programação

Art. 5º – As emissoras transmitirão entretenimento do melhor nível artístico e moral (…)

Art. 7º – Os programas transmitidos não advogarão discriminação de raças, credos e religiões (…)

Art. 15º – (…)

1) São livres para exibição em qualquer horário, os programas ou filmes:

a) que não contenham cenas realistas de violência, (…); não tratem de forma explícita temas sobre estupro, sedução, sequestro, prostituição e rufianismo;

(…)

d) que não apresentem nu humano (…), não insinuem o ato sexual, limitando as expressões de amor e afeto e carícias e beijos discretos. Os filmes e programas livres para exibição em qualquer horário não explorarão o homossexualismo (sic);

e) cujos temas sejam os comumente considerados apropriados para crianças e pré-adolescentes, não se admitindo os que versem de maneira realista sobre desvios do comportamento humano e de práticas criminosas mencionadas nas letras “a”, “c” e “d” acima;

(…)

2) Poderão ser exibidos, a partir de 20 horas (…):

a) (…) sendo permitida a insinuação de conjunção sexual sem exposição do ato ou dos corpos, sem beijos lascivos ou erotismo considerado vulgar;

(…)

3) Poderão ser exibidos, a partir das 21 horas (…) temas adultos ou sensíveis, observadas as restrições ou uso da linguagem dos itens anteriores e as restrições quanto à apologia do homossexualismo, da prostituição e do comportamento criminoso ou anti-social (…).

4) Poderão ser exibidos após as 23 horas os programas e filmes: que apresentem violência, desde que respeitadas as restrições do horário anterior; que não apresentem sexo explícito nem exibam, em “close”, as partes e órgãos sexuais exteriores humanos; que utilizem palavras chulas ou vulgares desde que necessárias e inseridas no contexto da dramaturgia; que abordem seus temas sem apologia da droga, da prostituição e de comportamentos criminoso.

É bastante curioso notar que a busca pelo entretenimento de melhor nível artístico e moral ficou só no papel, assim como a discriminação religiosa tá logo ao alcance do controle remoto: relembre a delicadeza do pastor que chutou a imagem de uma santa ou as patéticas sessões de “descarrego” tão comuns nas madrugadas da tv do bispo.

As cenas impróprias por horário são frequentes em novelas e filmes independentemente do período do dia, ao mesmo tempo que prostituição, homossexualismo e comportamento criminosos recebem a mesma classificação.

O sofrimento e a arte

Em Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, a sociedade futurística é formada por humanos fabricados e condicionados, possibilitando a existência de uma população saudável e obediente, além da diferenciação de classes conforme características físicas e intelectuais.

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Diante de uma população fabricada, as relações familiares eram tidas como algo primitivo e vulgar, assim como a vida coletiva era valorizada e necessária para o bem estar da sociedade. Para tanto, o passado foi reescrito conforme a necessidade de manter o suposto bem estar e o que divergia do pensamento imposto fora destruído e proibido. Dessa forma, a Arte foi substituída pelo entretenimento sensorial criado por Engenheiros de Emoções.

Um dos líderes do governo em questão, o Administrador Mudial Mustafá Mond explica para Helmholtz e John porque Shakespeare não é bem vindo na sociedade:

Porque o nosso mundo não é o mesmo que o de Othello. Não se podem fazer calhambeques sem aço e não se podem fazer tragédias sem instabilidade social. O mundo é estável, agora. As pessoas são felizes, conseguem o que querem e nunca querem aquilo que não podem obter. Sentem-se bem, estão em segurança, nunca estão doentes, não receiam a morte, vivem numa serena ignorância da paixão e da velhice, não são sobrecarregadas com pais e mães, não têm mulheres, nem filhos, nem amantes, pelos quais poderiam sofrer emoções violentas, estão de tal modo condicionadas que, praticamente, não podem deixar de se portar como devem.

(…) esse é o preço que temos de pagar pela estabilidade. É preciso escolher entre a felicidade e o que outrora se chamava a grande arte. Nós sacrificamos a grande arte. Temos em seu lugar os filmes perceptíveis e os órgãos de perfumes.

Gostei muito desse trecho por expor a idéia da necessidade da instabilidade social para existir a Arte, assim como enobrece o ideal do artista-sofredor.

Claro que a instabilidade social é um terreno fértil para obras artísticas surgirem e proporem discussões relevantes, mas nem só de tristeza vive a arte. Já para combater o ideal do artista-sofredor, muito difundido principalmente na poesia, recorro às palavras do diretor de cinema David Lynch, retiradas do livro Em Águas Profundas:

O artista precisa entender o conflito e o estresse. Essas coisas lhe instigam idéias. Mas garanto que estresse demais imobiliza à criatividade. Podemos entender o conflito, sem necessariamente viver dentro dele.

(…)

É senso comun: quanto mais o artista sofre, menos criativo ele fica. O mais provável é que trabalhe de má vontade e que dificilmente faça algo de interessante.

A literatura permite formular perguntas

“Creio que a literatura não promove mudanças, mas permite formular perguntas. E as perguntas promovem as mudanças. Uma menina em uma livraria chegou e me disse “O búfalo da noite me tirou todas as dúvidas que meu terapeuta não conseguiu tirar em três anos”. Essa é talvez um das melhores homenagens que se pode fazer a um escritor. Às vezes, os livros questionam tão fortemente a realidade que esta tem de mudar.”

O trecho acima foi extraído da excelente entrevista, da edição nº 15 (outubro de 2008) da Revista da Cultura, com Guillermo Arriaga, escritor de O Esquadrão Guilhotina, Um Doce Aroma da Morte e O Bufalo da Noite, além de roteirista dos filmes Amores Brutos, 21 Gramas, Babel e diretor de The Burning Plain.

Distopia e subversão

Admirável mundo novo é uma distopia escrita por Aldous Huxley em 1932 em que as pessoas, num futuro hipotético, são “fabricadas” e condicionadas pela hipnopedia para aceitarem obedientemente as regras estabelecidas num mundo onde relações familiares, cultura e religião são alguns dos tabus sociais.

No 3º capítulo do livro, numa narrativa que intercala quatro cenas diferentes entre um parágrafo e outro, vamos conhecendo melhor o mundo imaginado por Huxley onde os anos são contados a partir da criação do Ford T e a expressão religiosa Nosso Senhor deu lugar a Nosso Ford. Ao longo da palestra do Administrador Mundial Mustapha Mond sobre como o mundo era horrível cheio de mães, pais, livros, museus e que “A história é uma ilusão”, recebemos pequenas doses da hipnopedia:

“Os fatos velhos são detestáveis. Nós rejeitamos sempre os fatos velhos. Mais vale destruir que conservar, mais vale destruir que conservar. Quanto mais se remenda, pior se fica. Quanto mais se remenda, pior se fica. Como gosto de ter fatos novos. Como gosto de ter fatos novos. Como gosto de andar de avião, como gosto de andar de avião.”

Da distopia de Huxley para a subversão de Chuck Palahniuk, em No Sufoco:

“O irreal é mais poderoso do que o real.

Porque nada é tão perfeito quanto você você pode imaginá-lo.

Porque é só idéias intangíveis, conceitos, crenças, fantasias que duram. Pedra desintegra. Madeira apodrece. Pessoas… bem, elas morrem.

Mas coisas tão frágeis como um pensamento, um sonho, uma lenda, continuam.”

Escritores de épocas distintas – Huxley marcado pelo fascismo italiano ao qual conviveu na décade de 20; Palahniuk na esquizofrenia do século 21 – com aflições tão semelhantes.

Ida Mancini, a terrorista social

No livro No Sufoco de Chuck Palahniuk – também conhecido como o autor de Clube da Luta – conhecemos ao longo da história o passado de Ida Mancini, a mãe idosa e insana do protagonista Victor Mancini, um viciado em sexo que trabalha como ator num museu temático e nas horas vagas simula engasgar-se em restaurantes caros.

O passado de Ida é repleto de estadias na cadeia e sabotagens de deixar Tyler Durden do Clube da Luta orgulhoso. Uma ‘terrorista anti-social’ é a melhor definição da personalidade de Ida, conforme seu filho. As idéias anárquicas da personagem é resumido no trecho abaixo, em tradução livre a partir da edição original.

“As pessoas trabalham por tantos anos para fazer o mundo um lugar seguro e organizado. Ninguém percebeu o tanto que isso vai ficar chato. O mundo todo com demarcação de propriedade e limite de velocidade e zoneamento e tarifado e regulamentado, com todo mundo analisado e registrado e endereçado e gravado. Ninguém deixou muito espaço para a aventura, talvez exceto a que você pode comprar. Em uma montanha russa. Em um cinema. Mesmo assim, sempre seria uma excitação artificial. Você sabe que os dinossauros não comerão as crianças. As exibições-testes foram contra qualquer possibilidade de um grande desastre artificial. E porque não há possibilidade de desastre real, risco real, perdemos a oportunidade da salvação real. Entusiasmo real. Excitação real. Alegria. Descoberta. Invenção.

As leis que nos mantém salvos, nos condenam ao tédio.

Sem acesso ao verdadeiro caos, nunca teremos a verdadeira paz.

Ao menos que tudo possa piorar, não ficará melhor.”

No Sufoco (ou Choke, no original) foi adaptado para o cinema e deve ser lançado por volta de Outubro nos EUA. Anjelica Houston, a inesquecível Morticia Addams, interpreta a adorável e alucinada Ida Mancini e Sam Rockwell dá vida a seu filho Victor. A maluquice toda é dirigida por Clark Gregg (pela primeira vez na direção), o marido de Christine na série The New Adventures of Old Christine.

Sobre livros e tecnologia

A quem se interessa pela discussão sobre o futuro do livro de papel – independente da postura apocalíptica ou integrada – indico o texto A nova Era do Livro do Bruno Rodrigues (autor de Webwriting: Redação & Informação para a Web) publicado no site Comunique-se.

“Tecnologia? Inovação? Novos formatos? Qual nada. O que o admirável mundo novo da web trouxe ao livro – sabe-se hoje no emblemático ano de 2008 – não foi a técnica de recriar formatos, mas a magia de aproximar histórias de pessoas.”

Futebol, uma chatice nacional

Viver no país considerado “do futebol” e achar isso uma bela duma baboseira é praticamente uma heresia no Brasil. Lembro que deixei muita gente inconformada na época da Copa do Mundo no Japão só porque ao invés de assistir às partidas da seleção brasileira nas madrugadas, preferi fazer algo de maior importância para a minha vida: dormir.

Eis que na edição deste mês da revista piauí no texto Eles não valem nada (p. 24 – 30), da inglesa Juliana Foster, há uma excelente analogia do quanto assistir a um jogo de futebol pode ser entediante:

“A existência de campeonatos quase o ano todo significa que não há escapatória. Há sempre uma partida na televisão, às vezes em vários canais ao mesmo tempo. Ficamos imaginando como a população masculina reagiria se Sintonia de Amor e O Diário de Bridget Jones passassem em vinte canais, alternadamente, por várias semanas seguidas. Não muito bem, aposto.”