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John Waters – Parte 6

Cry-Baby (1990)

Com Johnny Depp no papel principal, elenco cada vez mais famoso e excelentes músicas, Cry-Baby foi o único musical de John Waters e provavelmente uma das poucas megaproduções do cineasta.

Wade Walker (Depp), também conhecido por Cry-Baby pela habilidade de chorar apenas uma lágrima, faz parte dos Drapes, os garotos rebeldes e desajustados de uma escola de Baltimore nos anos 50, rivalizados pelos certinhos e endinheirados Squares.

A rivalidade entre Drapes e Squares acentua com o namoro de Cry-Baby e Allison Vernon-Williams (Amy Locane), uma típica square que está “cansada de ser boazinha”.

No elenco, além dos já tradicionais Dreamlanders, Ricki Lake volta após o sucesso de Hairspray na companhia do cantor Iggy Pop e da controversa Traci Lords, que ganhou fama após revelar ter realizado centenas de filmes pornográficos antes de completar 18 anos, tornando todo o material ilegal.

Para não desagradar totalmente o estúdio investidor, que exigiu um filme de classificação 14 anos, John Waters pegou leve nos temas polêmicos, mas sem desapontar os fãs com as suas inversões de valores e sátiras subversivas.

John Waters – Parte 5

Hairspray – E Éramos Todos Jovens (Hairspray, 1988)

No começo da década de 60 a grande sensação da tv em Baltimore era o programa Corny Collins Dance Show. Fazer parte dos participantes/dançarinos era o sonho dos adolescentes, principalmente de Tracy Turnblad (Ricki Lake), a gordinha de cabelo armado à base de muito hairspray. Após ganhar um concurso de dança, Tracy é selecionada para integrar ao Corny Collins a princípio contra a vontade de sua mãe Edna (Divine, em seu último papel), até enchergar as possibilidades financeiras no sucesso da filha.

O sucesso de Tracy incomoda a mimada Amber von Tussle (Colleen Fitzpatrick), que com a ajuda dos pais Velma (Debbie Harry) e Franklin (Sonny Bono) procuram sabotar a gordinha preferida pelo público. Ao mesmo tempo, algo mais importante preocupa Tracy e seus amigos: segregação racial, participando de protestos a favor da integração em programas de tv.

Apesar de ter ganhado uma adaptação em musical da Broadway em 2002 e um filme musical em 2007, Hairspray não é um musical. O filme dançante de John Waters tem uma produção mais requintada, fugindo da estética trash de seus primeiros filmes. Entre os Dreamlanders originais, participam do filme Mary Vivian Pearce e Mink Stole, além de Divine, que faleceu antes do lançamento do filme.

John Waters – Parte 4

Polyester (1981)

Francine Fishpaw (Divine) é uma dona de casa dedicada, casada com um proprietário de cinema pornô e mãe de uma ninfomaníaca e de um violento podólatra viciado em desinfetantes, que vê sua vida desmoronar com os protestos de defensores de filmes de classificação livre, a gravidez da filha e os ataques do filho como maníaco pisador de pés. Roubando a cena, surge a amiga confidente e ex faxineira Cuddles Kovinsky (Edith Massey com sua inconfundível atuação adoravelmente mecânica) – que ficou rica após receber herança de antigos clientes – para ajudar Francine a descobrir a traição do marido com a secretária.

Desiludida, Francine passa a beber compulsivamente e tenta suicídio enquanto o filho é preso e a filha é enviada para uma instituição religiosa administrada por freiras cruéis. Após uma sequência de desastres na vida da família, os problemas vão sendo aparentemente resolvidos, assim como Francine arruma um novo namorado, que na verdade é comparsa e amante de sua mãe para roubar o dinheiro recebido no divórcio.

Uma das atrações de Polyester quando foi lançado em 1981 é o cartão Odorama – que também acompanha a edição importada do DVD – que a partir de indicações numéricas na tela permite que o espectador sinta o cheiro característico da cena ao raspar o número correspondente no cartão, recurso bastante útil já que a protagonista está sempre intrigada ou incomodada com determinados vestígios olfativos.

Sexta long-metragem da carreira de diretor de John Waters, Polyester indica um início de suavização dos temas polêmicos e nonsense em seus filmes, assim como uma produção mais sofisticada, fugindo um pouco da caráter trash marcante dos primeiros filmes. O filme também rendeu trechos de diálogos usados na fantástica música Frontier Psychiatrist, do grupo eletrônico The Avalanches.

John Waters – Parte 3

Problemas Femininos (Female Trouble, 1974)

A trajetória caótica de Dawn Davenport (interpretada por Divine, claro) é o centro da história de Problemas Femininos, de John Waters, começando pela fuga da jovem revoltada por não ter ganhado sapatos de salto alto (um cha-cha heals, como são chamados os sapatos de stripers) de presente de Natal. Na fuga, Dawn ganha carona de Earl Peterson (também interpretado por Divine!) que resolve aproveitar da garota no meio do caminho, mas acaba tendo a carteira roubada. Grávida e solta no mundo, para sobreviver Dawn vira uma garota de carreira(s): garçonete, stripper, prostituta e assaltante. Com uma mãe nem um pouco exemplar, a garota Taffy (Mink Stole) torna-se uma criatura irritante e revoltada que brinca de acidente de carro e nunca foi à escola para não perder tempo com “presidentes, guerras, números ou ciência”.

Dawn casa-se com o cabeleireiro Gator (Michael Potter) para infelicidade da tia Ida (Edith Massey) – uma sexagenária gorda que só usa roupas de couro justas e decotadas – que preferia que o sobrinho fosse gay, pois “o mundo heterossexual é uma vida doente e tediosa”. Mesmo com o fim do casamento, Dawn é convidada para ser modelo em um ensaio fotográfico cheio de crimes pelo casal Dasher (David Lochary e Mary Vivian Pearce), levando a insana protagonista às últimas consequências até o seu apogeu: a cadeira elétrica.

Desperate Living (1977)

Peggy Gravel (Mink Stole) é uma histérica e paranóica dona de casa que acabou de voltar do sanatório e ataca o marido ao imaginar que o mesmo tentava matá-la. Ao gritar por socorro, é acudida pela empregada obesa Grizelda (Jean Hill) que acidentalmente mata o patrão sufocado ao sentar no mesmo. Para evitar a prisão, Peggy e Grizelda fogem para Mortville, uma espécie de vilarejo para criminosos e marginalizados, dominado pela Rainha Carlota (Edith Massey).

Grizelda e Peggy alugam um quarto na pensão de uma ex-lutadora lésbica e sua namorada assassina, desencadeando inúmeras situações bizarras. Desperate Living, além de não contar com a presença de Divine, é o filme mais lésbico da carreira do diretor.

John Waters – Parte 2

PinkFlamingos

Pink Flamingos (1972)

Reverenciado como o melhor pior filme do mundo, Pink Flamingos sem dúvidas bate recordes em situações, cenas e contextos subversivos, polêmicos e escatólogicos. O exercício de mau gosto, disfarçado em uma comédia escrachada, traz Divine novamente no centro da história: a foragida Divine – a pessoa mais perversa ainda viva – usa o codinome Babs Johnson e tem como esconderijo um trailer rosa (com estátuas de flamingos decorando a entrada) em um terreno baldio, habitado também pela amiga voyeur Cotton, o filho maníaco Crackers e a mãe de baixa idade mental  Edie.

Como uma boa criminosa, Babs orgulha-se pela péssima fama conquistada a custo de muito esforço: assassinatos e roubos. No entanto, o invejoso casal Marble planeja tomar o título de pessoa mais perversa viva de Babs e para isso contam com uma estratégia única: sequestrar mulheres e engravidá-las para depois vender os bebês para casais de lésbicas e, com o dinheiro arrecadado, financiar o tráfico de heroína em escolas infantis, além de manter lojas de pornografia.

edieLogo no início a bizarrice começa com a mãe de Babs – a obesa e retardada Edie – que vive em um chiqueirinho comendo e implorando por ovos o dia todo. A guerra entre Divine e os Marbles é declarada após estes enviarem um singelo presente de aniversário a Babs: uma bela e colorida caixinha com bosta. A batalha segue com uma operação profonação da casa dos Marbles: Divine/Babs e seu filho Crackers lambem todos móveis e objetos da casa e acabam tomando outras medidas mais drásticas.

Filmagens toscas, às vezes mal enquadrada e/ou desfocada, além das atuações muitas vezes exageradas são só detalhes na sequência de cenas memoráveis (ou seriam traumatizantes?) que vão desde uma cena de sexo envolvendo galinhas vivas sendo esmagadas, a uma dublagem de música feita por, digamos, outra parte do corpo além da boca, além da inacreditável cena que encerra o filme, com Divine provando que sua perversidade não tem limites.

Pink Flamingos é aquele tipo de filme que pode assustar os mais desavisados, mas nem por isso deve ser desmerecido pelo excesso de conteúdo inapropriado. Toda a tosquice e subversão proposta rendem uma história engraçada, cheia de nonsense e frases de efeito extremamente eficientes. É puro cinema trash para assistir sem pudores.

John Waters – Parte 1

JohnWatersNascido em 22 de Abril de 1946 na cidade de Baltimore (EUA), o diretor de cinema John Waters, mesmo sem lançar um novo filme desde 2004, ainda merece o título de Rei do Trash pela filmografia que transborda o culto ao mau gosto. Mestre da comédia transgressora, Waters reunia em seus filmes os mais diversos tipos marginais da sociedade com uma naturalidade até exagerada. E essa mistura não ficava só na ficção, pois com um elenco regular – os Dreamlanders presente na maioria de seus filmes, reunia além de beatniks e hippies, a drag queen Divine, a herdeira, socialite e assaltante de banco Patty Hearst e a atriz pornô Traci Lords.

John Waters começou a aventurar-se atrás das câmeras em 1964 com o curta Hag in a Black Leather Jacket. Outros curtas produzidos e nunca lançados comercialmente são Roman Candles (de 1966), Eat Your Makeup (de 1968) e The Diane Linkletter Story (de 1969).

Adiante, continuarei mencionando cada longa-metragem (são 12 no total) e, para tanto, este texto tornará um especial dividido em vários posts.

MondoTrashoMondo Trasho (1969)

Filmado em P&B e praticamente sem falas, o filme de 95 min honra o baixíssimo orçamento de 2 mil dólares ao contar a história de uma garota (Mary Vivian Pearce) que após ser atacada prazerosamente em um parque por um podólatra, é atropelada por Divine, distraída pela presença de um homem nu pedindo carona na rodovia. Com a defunta em seu carro, Divine passa por várias situações nonsenses ao redor de Baltimore contando com aparições da Virgem Maria até chegar ao consultório do estranho médico que troca os pés da defunta por pés de galinha, ressuscitando a garota. A sequência inicial do filme não é recomendada para defensores dos animais: galinhas vivas se debatem ao serem decepadas com um machado.

Mondo Trasho nunca foi lançado comercialmente porque, segundo Waters, as músicas usadas ao longo do filme não foram legalmente autorizadas e seria financeiramente inviável pagar todo os direitos autorais ou reeditar o áudio. Tecnicamente o filme é bastante tosco, assim como a história. Vale assistir apenas pela curiosidade.

MultipleManiacsMultiple Maniacs (1970)

Lady Divine (Divine) lidera a trupe Cavalgada da Perversão, o show “mais sujo do mundo” montado em barracas num parque, para no fim das apresentações roubar os visitantes. Entediada por só roubar as pessoas, Lady Divine decide que também quer matá-las após as performances. Mais tarde, ao receber um telefonema avisando que seu marido Mr. David (David Lochary) encontrava outra mulher, Divine decide conferir a traição pessoalmente, mas no meio do caminho é estuprada por um barbudo de vestido e salto-alto. Em seguida, Divine recebe a aparição do Santo Menino de Praga que a guia até uma igreja onde acaba sendo seduzida por outra mulher, Mink (Mink Stole), resultando numa cena de sexo envolvendo um crucifixo e narração da Via Crucis.

Após sua primeira e bem sucedida experiência lesbiana, Lady Divine decide terminar com Mr. David sem saber que o mesmo planejava matá-la. No entanto, o plano de Mr. David sai do controle e resulta numa chacina, sobrevivendo apenas Lady Divine que, por fim, é novamente estuprada, mas desta vez por uma lagosta gigante.

Multiple Maniacs também filmado em P&B, tem falas e conta com 90 minutos de muita bizarrice, resultando num filme puramente tosco com momentos engraçados e insanos. As cenas finais com Divine correndo enlouquecida pelas ruas, com a boca espumando, é melhor do que qualquer hit de youtube.