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Tudo o que é sólido pode derreter

Tudo o que é sólido pode derreter é uma série brasileira de 2009, co-produzida pela TV Cultura e Ioiô Filmes, que tem como personagem principal a garota Thereza (Mayara Constantino) e suas reflexões sobre a transição para a idade adulta, sempre traçando paralelos com alguma obra da literatura de língua portuguesa.

A série é derivada de um curta-metragem do mesmo nome, produzida em 2005, tendo na direção de ambas produções Rafael Gomes, também responsável por Tapa na pantera. O curta Tudo o que é sólido pode derreter está disponível no Porta Curtas.

A adaptação em série teve 13 episódios, cada um focado em uma obra literária específica, permeados pelo cotidiano de Thereza. Logo no primeiro episódio, as divagações da protagonista tem o respaldo do dualismo de Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, e ainda conta com a participação de Maria Alice Vergueiro no papel do Diabo.

Os Sermões (Padre Antônio Vieira), Os Lusíadas (Luis Vaz de Camões), Senhora (José de Alencar), Dom Casmurro (Machado de Assis) e Macunaíma (Mario de Andrade) são algumas das obras revisitadas na série, sempre com episódios que trilham entre a comédia e o drama de forma divertida e carismática.

Tudo o que é sólido pode derrenter ainda pode ser visto pela programação da TV Cultura, em DVD ou até mesmo no site do canal.

Dexter, o livro

“Francamente: se você não consegue entregar meu jornal na hora, como vai esperar que eu consiga não matar pessoas?”

Dexter, o adorável serial killer interpretado por Michael C. Hall na série produzida pelo canal Showtime é originalmente cria da imaginação do escritor americano Jeff Lindsay, surgido na 5ª obra do escritor – e primeiro livro da série -, Dexter: A mão esquerda de Deus foi lançado em 2008 no Brasil graças ao sucesso da série de tv.

Dexter: A mão esquerda de Deus, lançado nos EUA em 2004 como Darkly Dreaming Dexter, conta a história de perito criminal em análise de sangue, Dexter Morgan, que nas horas vagas é um serial killer especializado em matar outros serial killers e passa a acompanhar uma série de crimes do misterioso assassino do caminhão de gelo, ao mesmo tempo que nota uma possível comunicação desse novo assassino consigo.

Aos que já conhecem a série de tv, o livro pode ser uma boa surpresa: a narrativa é a mesma da primeira temporada, porém com algumas leves alterações em personagens secundários (o Angel Batista é quase um figurante no livro) e uma morte no final de um personagem que continuou vivo na série.

Mas o melhor motivo para ler o livro é a narração altamente irônica e ácida de Dexter, que lembra a maldade sem peso na consciência de Humbert Humbert em Lolita de Vladimir Nabokov, proporcionando uma leitura divertida e empolgante.

4ª Bienal do Livro traz Adriana Partimpim para Rio Preto

Amanhã, dia 30 de Abril de 2010, começa a 4ª Bienal do Livro de Rio Preto com espetáculos, palestras, encenações, exposições, projeções e shows ao longo da programação que estende até o dia 09 de Maio e tem como espaço o Centro de Educação, Cultura e Artes – Swift.

Já na primeira noite da Bienal, a cantora Adriana Calcanhotto apresentará o show Adriana Partimpim – Dois É Show no Anfiteatro Nelson Castro (em frente à Swift), que recebeu estrutura especial para o evento para abrigar além de shows, apresentações de teatro e dança.

Dois é Show apresenta o segundo disco de Adriana Calcanhotto voltado ao público infantil, que para tal projeto a cantora utiliza o pseudônimo Adriana Partimpim. A apresentação será gratuita e terá início às 20h.

Confira a programação completa:

4ª Bienal do Livro: www.bienalriopreto.com.br

Siga a Bienal no Twitter: @BienalLivro2010

Nico – Chelsea Girl

ChelseaGirlLogo após o surgimento das primeiras músicas gravadas pela atriz Scarlett Johansson em sua carreira musical, minhas primeiras impressões foram: 1) Ela é melhor como atriz; 2) Isso parece um cover ruim da Nico. Claro que algumas músicas um pouquinho melhores da atriz surgiram em seguida, mas na minha cabeça a comparação com aquela que foi integrante do Velvet Underground permaneceu.

Da carreira de modelo, Nico (nascida Christa Päffgen) acabou ganhando papéis em alguns filmes, chegando a fazer participações em A Doce Vida de Federico Fellini e Chelsea Girls de Andy Warhol. A amizade com Warhol rendeu o convite para a então modelo/atriz soltar a voz num álbum solo, além da participação no Velvet Underground. Assim, pegando carona na participação no filme Chelsea Girls, em 1967 a cantora Nico surge com o álbum Chelsea Girl com faixas assinadas por Bob Dylan, Lou Reed, entre outros.

A voz grave, entonação e pronuncia típica de uma estrangeira (Nico era alemã) davam um toque esquisitão em músicas  suaves, embaladas por flauta, violoncelo, guitarra e órgão. A faixa de abertura, The Fairest of the Seasons – de uma beleza singular – assim como a faixa-título (ouça uma versão ao vivo) deixam claro o potencial da cantora. O disco só não é todo perfeito pela longa e entediante It Was a Pleasure Then que em 8 minutos abre mão da musicalidade para o experimentalismo.

Dia do Remorso

“Deus criou o mundo em seis dias, descansou no domingo e na segunda se arrependeu. Desde então, a segunda-feira ficou consagrada como dia internacional do remorso”

OrgiasLuís Fernando Veríssimo

A arma sonora

No livro Cantiga de Ninar, de Chuck Palahniuk, o jornalista Carl Streator, durante pesquisas sobre a Síndrome de Morte Súbita Infantil, descobre uma cantiga africana que se falada – ou mesmo pensada – em direção a alguém, mata a pessoa no mesmo instante. Pouco antes do verso fatal – ou cantiga de poda – transformar o jornalista num assassino compulsivo, Streator imagina como seria se o barulhento mundo de hoje começasse a aterrorizar-se com qualquer tipo de som:

O trovão abafado do diálogo atravessa as paredes, seguido por uma gargalhada em coro. Depois, mais trovões. a maior parte das trilhas sonoras de risadas na televisão foi gravada no começo da década de 1950. Hoje em dia, a maioria das pessoas que nós ouvimos rindo já estão mortas. (…)

Sob o assoalho, alguém está exclamando as palavras da letra de uma canção. Essas pessoas que precisam de suas tevês, vitrolas ou rádios tocando o tempo todo, essas pessoas que têm tanto medo do silêncio, são minhas vizinhas.

São barulhonômanos. Silenciófobos. (…)

Nós aumentamos o volume da nossa música para abafar o barulho. Os outros aumentam o volume da sua música para abafar a nossa. Nós aumentamos a nossa mais uma vez. (…)

Não se trata de qualidade. Trata-se de volume. (…)

Esses barulhômanos. Esses calmófobos.

Lá vem a batida, a batida e a batida de um tambor atravessando o teto. Pelas paredes, dá pra ouvir o riso e o aplauso de gente morta.

(…) Não é que você queira que todo mundo morra, mas seria agradável soltar o feitiço de poda no mundo. (…) Depois que as pessoas declarassem ilegal qualquer som forte, qualquer som que pudesse abrigar um feitiço, qualquer música ou barulho que pudesse ocultar um poema mortífero, depois disso o mundo ficaria silencioso. Perigoso e assustador, mas silencioso.

Dorian Gray

Já faz um bom tempo que falei aqui sobre mais uma adaptação do maravilhoso livro O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, para o cinema.

Finalmente, o filme dirigido por Oliver Parker estreará no Reino Unido no dia 9 de setembro e já tem um aperitivo circulando pela web:

Parece que dessa vez acertaram a mão.

Via Celso Dossi.

O instinto assassino por G.H.

Numa passagem de A Paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector (obviamente um dos meus livros preferidos), G.H. discorre, tomada pelo pânico, sobre o inesperado desejo de matar. O texto de Clarice faz um retrato sublime de como a ira nos cega repentinamente:

O medo grande me aprofundava toda. Voltada para dentro de mim, como um cego ausculta a própria atenção, pela primeira vez eu me sentia toda incumbida por um instinto. E estremeci de extremo gozo como se enfim eu estivesse atentando à grandeza de um instinto que era ruim, total e infinitamente doce – como se enfim eu experimentasse, e em mim mesma, uma grandeza maior do que eu. Eu me embriagava pela primeira vez de um ódio tão límpido como de uma fonte, eu me embriagava com o desejo, justificado ou não, de matar.

Logo adiante, G.H. não resiste e comete o crime que, fora do contexto, pode soar cômico, mas somente uma escrita tão envolvente é capaz de tornar qualquer absurdo em um relato coerente:

Sem nenhum pudor, comovida com minha entrega ao que é o mal, sem nenhum pudor, comovida, grata, pela primeira vez eu estava sendo a desconhecida que eu era – só que desconhecer-me não me impediria mais, a verdade já me ultrapassara: levantei a mão como para um juramento, e num só golpe fechei a porta sobre o corpo meio emergido da barata.

O Código de Ética Decorativo

Uma instituição – seja pública ou privada – ao buscar orientar ações e explicitar a própria postura diante da sociedade serve-se de um código de ética como instrumento para a exposição de princípios a serem cumpridos.

São vários os códigos de ética profissionais, empresariais e governamentais; temos, por exemplo, Código de Ética Odontológica, Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, Código de Ética do Grupo Pão de Açúcar, Código de Ética dos Servidores da Anatel, entre outros.

Enquanto alguns códigos de ética só interessam aos envolvidos, outros merecem maior destaque e este caso deve ser aplicado ao Código de Ética da Radiodifusão Brasileira, de 1993, firmado entre os empresários da Radiodifusão Brasileira e Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão).deadtv

O texto que inicia com o pacto entre os empresários de radiodifusão dispostos a “transmitir apenas o entretenimento sadio e as informações corretas espelhando os valores espirituais artísticos que contribuem para a formação da vida e do caráter do povo brasileiro” é uma coletânea de dissimulações e idéias retrógradas. Destaco alguns trechos curiosos:

(…)

CAPITULO II

Da Programação

Art. 5º – As emissoras transmitirão entretenimento do melhor nível artístico e moral (…)

Art. 7º – Os programas transmitidos não advogarão discriminação de raças, credos e religiões (…)

Art. 15º – (…)

1) São livres para exibição em qualquer horário, os programas ou filmes:

a) que não contenham cenas realistas de violência, (…); não tratem de forma explícita temas sobre estupro, sedução, sequestro, prostituição e rufianismo;

(…)

d) que não apresentem nu humano (…), não insinuem o ato sexual, limitando as expressões de amor e afeto e carícias e beijos discretos. Os filmes e programas livres para exibição em qualquer horário não explorarão o homossexualismo (sic);

e) cujos temas sejam os comumente considerados apropriados para crianças e pré-adolescentes, não se admitindo os que versem de maneira realista sobre desvios do comportamento humano e de práticas criminosas mencionadas nas letras “a”, “c” e “d” acima;

(…)

2) Poderão ser exibidos, a partir de 20 horas (…):

a) (…) sendo permitida a insinuação de conjunção sexual sem exposição do ato ou dos corpos, sem beijos lascivos ou erotismo considerado vulgar;

(…)

3) Poderão ser exibidos, a partir das 21 horas (…) temas adultos ou sensíveis, observadas as restrições ou uso da linguagem dos itens anteriores e as restrições quanto à apologia do homossexualismo, da prostituição e do comportamento criminoso ou anti-social (…).

4) Poderão ser exibidos após as 23 horas os programas e filmes: que apresentem violência, desde que respeitadas as restrições do horário anterior; que não apresentem sexo explícito nem exibam, em “close”, as partes e órgãos sexuais exteriores humanos; que utilizem palavras chulas ou vulgares desde que necessárias e inseridas no contexto da dramaturgia; que abordem seus temas sem apologia da droga, da prostituição e de comportamentos criminoso.

É bastante curioso notar que a busca pelo entretenimento de melhor nível artístico e moral ficou só no papel, assim como a discriminação religiosa tá logo ao alcance do controle remoto: relembre a delicadeza do pastor que chutou a imagem de uma santa ou as patéticas sessões de “descarrego” tão comuns nas madrugadas da tv do bispo.

As cenas impróprias por horário são frequentes em novelas e filmes independentemente do período do dia, ao mesmo tempo que prostituição, homossexualismo e comportamento criminosos recebem a mesma classificação.

Dusty Springfield – A Girl Called Dusty

a_girl_called_dustyUma branquela com vozeirão e cabelo armado, embalada por letras tristes não é uma descrição exclusiva de Amy Winehouse. Influenciada pela soul music de gravadoras como a Motown, a coletânea de 1964 A Girl Called Dusty de Dusty Springfield traz belas interpretações desta que foi uma das principais cantoras de soul da Inglaterra nos anos 60.

dustyspringfieldDo hit Mama Said a versão de When The Lovelight Starts Shining Thru His Eyes, do trio The Supremes, passando pela canção feminista You Don’t Own Me, Dusty canta com firmeza as dores do amor, mantendo o charme necessário em um saboroso álbum a ser ouvido da primeira a última faixa.

A única falha na escolha das músicas para esta coletânea foi em não ter incluido a excelente I Just Don’t Know What To Do With Myself (mais conhecida hoje pela versão do White Stripes) que faz parte do álbum Dusty, também lançado em 64.

Ouça:

Mama Said:

When The Lovelight Starts Shining Thru His Eyes:

I Just Don’t Know What To Do With Myself:

Veja:

The Supremes – When The Lovelight Starts Shining Thru His Eyes

White Stripes – I Just Don’t Know What To Do With Myself

Dusty Springfield – I Just Don’t Know What To Do With Myself